segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Previsível

Passei boa parte da vida querendo o impossível.

Pedia a Deus que me concedesse milagres.

Eu queria sossegar num passe de mágica.

Mas, nisso aí, soei como imprevisível;

Porque agora sou óbvia e depois sou profunda.

E foi na obviedade do dia que percebi:

Preciso das coisas possíveis.

Alcançar o viável.

Ser previsível.

Com as rasuras deixadas pelas tentativas e erros.

Pelo projeto final assinado pelo acerto.

Simples, raso e fecundo.

Sem milagre ou fórmula mágica.

Com gestos curtos que me remendam por inteiro.

domingo, 18 de outubro de 2026

Comum

Costumo ser low profile.

As redes sociais não me definem.

As redes de apoio me instigam...

Nelas, não vos recruto;

Eu me apresento!

Não estou condensada ali.

Falo pouco de mim.

Escuto muito ao me ouvir.

Por me escutar, percebo.

Sinalizo minhas portas.

Escancaro meus limites.

Como faço isso?

Respeitando-me, ventilando-me...

Abri janelas para as dúvidas.

Vi-me resposta às perguntas.

Vi-me solução para os problemas.

Meu brilho não é estrelado...

Mas as estrelas me iluminam...

Caso perguntem como, direi:

Sou o céu onde elas descansam;

E pouso aos vôos turbulentos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Amigo,

Amigo,

Fique feliz que me avistou. Quando chamou-me pelo nome no supermercado, eu andei. Ouvi Márcia Japiassú e fui ao seu encontro. Para variar, comecei a assinar meu último sobrenome. Mas este detalhe você não sabe. Eu acho. O Japiassú soou tão orgânico, tão natural, que apenas ao nos despedirmos lembrei-me: Tínhamos um apelido. Na hora eu o esqueci; no tchau, ele voltou. Já era tarde. Antes de partir, deixou lembranças para mamãe — as quais compartilhei. Dividi com ela minha procura pelo verde dos seus olhos. Uma ligeira demonstração da minha falta de reparo e – quiçá – de memória. Você se foi com suas vasilhas e mantimentos; eu era a próxima na fila do caixa. Eu te observei dirigir e lembrei de quando trocou o pneu do meu carro; talvez não se recorde. Então, resolvi escrever. Pois, quando me perguntou “e seus textos?”, omiti: hoje não mais escrevo; eu me imprimo. Quando eu caibo nas frases, sou palavra, pontos e acento... eu me conecto. Estava com saudades, Xu. Como sempre, gentil, atencioso e cavalheiro. Seu sucesso é colheita. Sua vida é semente.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Contágio

A gente perdeu a habilidade do encontro. Conhecer alguém é mais sobre verificar se o que ouviu sobre o outro é verdade. Fazemos checklist de fofoca o tempo inteiro e validamos estereótipos naturalmente.


Despretensiosamente, somos cúmplices de quem conversa demais e conhece de menos. Falta traquejo no ouvir, falta molejo no abdicar certezas beneficiando a dúvida... 


Falta rever conceitos e pré-conceitos visibilizados pela maledicência e principalmente fechar o ciclo que viabiliza o desprezo, a discriminação e outras agressões.


A pessoa preterida, às vezes, tem suas falas tiradas de contextos e distorcidas por interesse de terceiros —  os fofoqueiros.


Estes, entenda, deslizam pelo vitimismo de quem projeta no outro a imperfeição que tem — ou seria a covardia?


Demorei vinte anos para compreender que há um limbo entre entrega e espera, e segundos para respeitar o meu jeito desigual à sua expectativa, por mais convidativa que pareça.


Talvez a grande questão seja: se para eu crescer preciso te diminuir, estou mesmo evoluindo?







quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Amiúde

Estou na fase das séries quarenta mais, dos sapatos confortáveis, de assistir doramas amiúde, de colocar meu fone e alongar a esmo, de escrever para mim (e por mim), de comer dois ovos por dia sem me martirizar, de praticar a escuta mais o silêncio como volante da fala. E neste momento – cuja curiosidade me leva a filosofia, a neurociência e para  alimentação saudável – ouço com ouvidos nada romanescos e bem elásticos o rugir da esperança, o sussuro da minha voz; e é aí no espelho da rotina na retina que me (re)conheço.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Permanece

Amigos partindo me aproximam de quem fica. Este tipo de partida faz-me pensar acerca de quem permanece. Caso questionada sobre uma memória estupenda, asseguro: a coexistência.


O convívio de antes é dádiva vigente – gratidão que corre nas veias desta saudosista, quiçá inconformada com o sumiço físico; sempre pensando "podia ter aproveitado mais".

Este amor assíduo, então, no meio da falta e do arrependimento (quando as lembranças dedicam a nostalgia o seu carinho) desperta sons, cheiros gestos e mais... como marca de quem foi nos que ficam com o que tem: esse memorial de empatia – conserva do tempo e dos ativos tomados de afeto.

E quando a saudade lacrimeja no berço do privilégio, repouso dos laços fraternos e agora eternos, meu canal lacrimal se esvai em poesia declamando a presença na ausência.





À Tereza

domingo, 26 de outubro de 2025

Carta a um jovem mancebo de quase 27 anos atrás.

Dia desses pensei em nós como evito pensar. Culpa do rádio que tocou algo nosso quando freei e por sorte o sinal fechou. Sintonizei afetos pretéritos com a música e desliguei quando percebi.


Cheguei em casa e sai te procurando online até lembrar que seu corte seco me inspirou a cortá-lo como me cortou. Bloqueado estava e não o desbloqueei.

Mantive apenas a memória dos arrepios no carro evocados pelo som.

Passada a sensação eu te escrevo. Sem outra pretensão além de reconhecê-lo como o mais próximo de um amor profundo e fecundo. Éramos jovens, tínhamos ideais e sonhos compatíveis com a penumbra da adolescência.

Você foi: uma condensação de afetos, um meio de fruição, o fluído da imaculada esperança; e tornou-se uma despedida silenciosa, esnobou minha versão sem ouvir-me e privou-me de um terno abraço – o derradeiro adeus.

Estamos longe, mas estou certa: perdeu uma ótima oportunidade de escutar a minha história e eu perdi uma excelente chance de – na época – focar em mim.

Já não ouço mais nada a seu respeito e inclusive não procuro saber. Sei desta que vos fala e te diz: fique bem, saudável, confortável e seguro – assim como estou no contexto atual.


♥️


Obs.: se você leu esta carta ela é destinada a um querido que não vejo a aproximadamente quinze anos. O cálculo do título é baseado na idade em que nos conhecemos; a gente estudava em salas diferentes, mas na mesma escola. Talvez este texto nunca chegue a quem o inspirou e está tudo bem – chegou em você. Vamos juntos!