quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Amigo,

Amigo,

Fique feliz que me avistou. Quando chamou-me pelo nome no supermercado, eu andei. Ouvi Márcia Japiassú e fui ao seu encontro. Para variar, comecei a assinar meu último sobrenome. Mas este detalhe você não sabe. Eu acho. O Japiassú soou tão orgânico, tão natural, que apenas ao nos despedirmos lembrei-me: Tínhamos um apelido. Na hora eu o esqueci; no tchau, ele voltou. Já era tarde. Antes de partir, deixou lembranças para mamãe — as quais compartilhei. Dividi com ela minha procura pelo verde dos seus olhos. Uma ligeira demonstração da minha falta de reparo e – quiçá – de memória. Você se foi com suas vasilhas e mantimentos; eu era a próxima na fila do caixa. Eu te observei dirigir e lembrei de quando trocou o pneu do meu carro; talvez não se recorde. Então, resolvi escrever. Pois, quando me perguntou “e seus textos?”, omiti: hoje não mais escrevo; eu me imprimo. Quando eu caibo nas frases, sou palavra, pontos e acento... eu me conecto. Estava com saudades, Xu. Como sempre, gentil, atencioso e cavalheiro. Seu sucesso é colheita. Sua vida é semente.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Contágio

A gente perdeu a habilidade do encontro. Conhecer alguém é mais sobre verificar se o que ouviu sobre o outro é verdade. Fazemos checklist de fofoca o tempo inteiro e validamos estereótipos naturalmente.


Despretensiosamente, somos cúmplices de quem conversa demais e conhece de menos. Falta traquejo no ouvir, falta molejo no abdicar certezas beneficiando a dúvida... 


Falta rever conceitos e pré-conceitos visibilizados pela maledicência e principalmente fechar o ciclo que viabiliza o desprezo, a discriminação e outras agressões.


A pessoa preterida, às vezes, tem suas falas tiradas de contextos e distorcidas por interesse de terceiros —  os fofoqueiros.


Estes, entenda, deslizam pelo vitimismo de quem projeta no outro a imperfeição que tem — ou seria a covardia?


Demorei vinte anos para compreender que há um limbo entre entrega e espera, e segundos para respeitar o meu jeito desigual à sua expectativa, por mais convidativa que pareça.


Talvez a grande questão seja: se para eu crescer preciso te diminuir, estou mesmo evoluindo?







quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Amiúde

Estou na fase das séries quarenta mais, dos sapatos confortáveis, de assistir doramas amiúde, de colocar meu fone e alongar a esmo, de escrever para mim (e por mim), de comer dois ovos por dia sem me martirizar, de praticar a escuta mais o silêncio como volante da fala. E neste momento – cuja curiosidade me leva a filosofia, a neurociência e para  alimentação saudável – ouço com ouvidos nada romanescos e bem elásticos o rugir da esperança, o sussuro da minha voz; e é aí no espelho da rotina na retina que me (re)conheço.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Permanece

Amigos partindo me aproximam de quem fica. Este tipo de partida faz-me pensar acerca de quem permanece. Caso questionada sobre uma memória estupenda, asseguro: a coexistência.


O convívio de antes é dádiva vigente – gratidão que corre nas veias desta saudosista, quiçá inconformada com o sumiço físico; sempre pensando "podia ter aproveitado mais".

Este amor assíduo, então, no meio da falta e do arrependimento (quando as lembranças dedicam a nostalgia o seu carinho) desperta sons, cheiros gestos e mais... como marca de quem foi nos que ficam com o que tem: esse memorial de empatia – conserva do tempo e dos ativos tomados de afeto.

E quando a saudade lacrimeja no berço do privilégio, repouso dos laços fraternos e agora eternos, meu canal lacrimal se esvai em poesia declamando a presença na ausência.





À Tereza

domingo, 26 de outubro de 2025

Carta a um jovem mancebo de quase 27 anos atrás.

Dia desses pensei em nós como evito pensar. Culpa do rádio que tocou algo nosso quando freei e por sorte o sinal fechou. Sintonizei afetos pretéritos com a música e desliguei quando percebi.


Cheguei em casa e sai te procurando online até lembrar que seu corte seco me inspirou a cortá-lo como me cortou. Bloqueado estava e não o desbloqueei.

Mantive apenas a memória dos arrepios no carro evocados pelo som.

Passada a sensação eu te escrevo. Sem outra pretensão além de reconhecê-lo como o mais próximo de um amor profundo e fecundo. Éramos jovens, tínhamos ideais e sonhos compatíveis com a penumbra da adolescência.

Você foi: uma condensação de afetos, um meio de fruição, o fluído da imaculada esperança; e tornou-se uma despedida silenciosa, esnobou minha versão sem ouvir-me e privou-me de um terno abraço – o derradeiro adeus.

Estamos longe, mas estou certa: perdeu uma ótima oportunidade de escutar a minha história e eu perdi uma excelente chance de – na época – focar em mim.

Já não ouço mais nada a seu respeito e inclusive não procuro saber. Sei desta que vos fala e te diz: fique bem, saudável, confortável e seguro – assim como estou no contexto atual.


♥️


Obs.: se você leu esta carta ela é destinada a um querido que não vejo a aproximadamente quinze anos. O cálculo do título é baseado na idade em que nos conhecemos; a gente estudava em salas diferentes, mas na mesma escola. Talvez este texto nunca chegue a quem o inspirou e está tudo bem – chegou em você. Vamos juntos!

domingo, 21 de setembro de 2025

Um textinho sobre livros e leituras, será?

Gosto muito de ler, não sou uma compulsiva literária muito menos uma leitora patológica... Apenas leio.


Leio nas horas de conforto e nas de desconforto, seja para me encontrar ou perder-me de mim;

Leio pela companhia das palavras mais macias e pela cortante ausência delas.

A verdade é que ler, no meu caso, preenche algumas lacunas e abre vazios – os quais levo a terapia.

Um livro não passa pela minha vida sem imprimir suas marcas alinhadas a esta que vos fala quando escreve.

Por pior – ao meu ver – que seja um livro ele comunica alguma coisa mesmo quando indigesto, difícil ou prolixo.

Insisto com alguns, corro com outros, contudo, com os melhores tenho curtas ressacas e uma boa sobriedade.

Já me perdi, admito, desconheço se falo de fato sobre livros ou sobre amigos.

Coleciono pouca gente, pois como na aquisição de uma obra literária a qualidade vem antes do montante.

Logo me enganei com muitas capas e aprendi a passar do índice sem esnobar o prefácio, isto é, pra compreender mais.

Diferente de muitos minha vida não é um livro todo aberto – sou a favor do spoiler, mas gosto da surpresa.

Dou abertura para novas amizades fazerem seus lançamentos e as velhas suas releituras – ambas com edições.

Também me re/edito. Quem nunca?

Enquanto isto me componho com o folhear da vida: onde minhas páginas avançam consultando as de trás.

Um alívio: sou capa dura e escrevo a mão minha história sem atalhá-la.

Apesar da rigidez externa sou brochura por dentro o que me faz ser estrita em partes, mas fácil e acessível no resto.

Também sou livro e o que disse me contempla: é impossível agradar a todos e isto faz parte da gente.








domingo, 14 de setembro de 2025

Avessa a algumas (im)posições

Aprendi como o silêncio quando tático é dadivoso. Ele me escudeia ou me inspira a ação. Por vezes, emudecida escuto as pessoas sem qualquer conhecimento acerca de algo entabular um assunto conservando-me calada e em paz. O silêncio quando estratégico organiza a ideia antes de compartilhá-la.


Eu por ser falha como tantos outros, ao posicionar-me sobre um tema por mais aleatório que pareça pondero se ele é equilibrado pela premissa básica de que consigo escutar além dos ruídos aparentes em meio a colocações sejam passivas (agressivas ou até assertivas) a minha própria coerência e incoerência que me deixa ensimesmada?!

Ao manusear as palavras enfileirando cada uma delas numa frase sempre me pergunto: compensa a exposição? E dessa forma mantenho muitas delas engavetadas para usá-las, adaptá-las ou descartá-las se preciso for, pois no final das contas quem escreve e fala se entrega e nem sempre vale a pena doar-se se ninguém prestar atenção.

Logo, sou pela comunicação genuína e  empática –  não a forçosa, que é especulativa e/ou falsa; sim, eu sou avessa a algumas imposições e a outras posições questionáveis.