sábado, 26 de março de 2022

Oremos

Que minha introspecção não abale minha cólera;

Que minhas certezas não demovam minhas indagações;

Que minha intensidade não barre a empatia e seus emissários;

Que minha desconfiança não transforme em paranoia a fé que me pertence;

E que minhas marcas não espelhem os palácios do meu imo às margens da pele.



sábado, 1 de janeiro de 2022

Querido ano,

Talvez o tempo acelere seus dias, as semanas saltem sem percebermos e os meses sejam maratonados como séries em tardes de domingo;
Talvez eu o conduza sem parâmetros, minha lista não se alinhe a sua e o meu calendário seja marcado conforme minha vontade acima do melhor pra mim;
Talvez o cerne da sua existência, controlado pela nossa essência, reluza o viço da esperança incubada na sua chegada tão querida;
E apesar de nenhuma articulação escapulir do controle humano, caberá a natureza reger o espetáculo da vida para o querer da gente não te diminuir.
Que não descartemos a chance de vivê-lo sem os velhos erros que cometemos no outro ano, que lá atrás ficou, para abrirmos nosso presente que é você: 2022.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Não

Não se olhe no espelho,
Não se ame por inteiro,
Não conheça a si mesmo,
Não siga seus conselhos,

Não seja do seu jeito,
Não viva com esmero,
Não reze bons trechos,
Não publique o desfecho,

Não coma o recheio,
Não pontue os defeitos,
Não observe o contexto,
Não ajude um parceiro,

Não ouça um aventureiro,
Não se esqueça do ponteiro,
Não aproveite o travesseiro,
E não obedeça este texto.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Posições

Escrevo de ouvido.
Não detalho o que escuto,
Pois ouço demais e
Pouso o que entra no que saí.
Ler eu leio de boca,
Sou mais vocal, mais oral.
Firmo isto em poesias.
E as assinalo sem regalias.
Para que o amor não morra
E eu não escorra;
Para que a vida (re)produza,
E eu não a reduza;
Tudo isto porque:
Escrevo de ouvido,
Leio de boca;
Inverto essas posições
E leio de ouvido,
Escrevo de boca...
E haja inversões...

sábado, 6 de novembro de 2021

O risco

O liame entre o efêmero e o eterno é o risco; e viver é arriscar-se, é um constante vir a ser, vir a ter e vir a estar. Não há nada mais potente que um instante sem antever qualquer prejuízo oriundo dele. O tempo vivido ocupa nas orações um espaço onde há na prática o verbo amar. O amor, porém, é ímpar, somos nós quem precisamos nos parear para não pararmos de conjugá-lo.


quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Márcia

Que significa guerreira dentro ou fora da guerra;

Que responde por Marcinha;

Que atende por Japiassú;

Que é chamada de Japi;

Que ama Márcia Filha;

Que assina Amaro do italiano: Amargo;

Que não é João, mas é Batista;

Que tem "de Souza" como a maioria;

Que se pudesse escolher chamaria Moema;

Mas não descartaria Miranda – em homenagem a Priestly, Hobbes e Bailey 
 (referência é tudo);

Que se fosse homem escolheria Timóteo;

Só que se fosse mãe batizaria de Heitor,

Que tem muitas alcunhas para poucos papéis;

E seis nomes insuficientes para tanto amor.

terça-feira, 8 de junho de 2021

Sei que o correto é 'deixa-me', mas, 'deixa eu' te pedir algo:

Deixa eu tratar os afetos insuportáveis que despacho ou abraço;

Deixa eu tomar consciência sem os óbices da resistência;

Deixa eu sumir com a culpa ao me responsabilizar por ela;

Deixa eu resolver os conflitos presentes nos verbos pretéritos;

Deixa eu dizer que a rima não nasce sem o aval da sina;

Deixa eu espaçar minha vida pelo esquadro do momento;

Deixa eu remover das horas vagas a pressão do desempenho;

Deixa eu expressar nesta mensagem minha ode à liberdade.